sábado, 13 de fevereiro de 2010

Viajaram os Filhos de Dan até Portugal?

Rufius Festus Avienus, poeta latino, escrevendo no século IV mas apoiado em velho roteiros fenícios e gregos com quase mil anos – «escritos recônditos» e «antigas páginas», nas suas próprias palavras – relata-nos no seu poema Ora Maritima que a região ocidental da Península Ibérica, antes chamada Oestrymnis, se chamava agora Ophiussa, e que o seu nome lhe vinha de uma grande invasão de serpentes que fizera fugir os antigos habitantes da terra. Os seus actuais habitantes chamavam-se Sefes e Cempsos (Saefes e Cempsi), e habitavam as colinas e os campos de Ophiussa.

Este é o mito fundador de Portugal, desde sempre desprezado pelos historiadores, mas agora olhado de novo, à luz dos últimos mapas genéticos das populações peninsulares, onde os pergaminhos celtas das populações da Galiza e do Norte de Portugal são definitivamente rasgados e substituídos por novos e inimagináveis pergaminhos berberes (Amazighs), de populações aqui instaladas desde o Neolítico e que nada têm a ver com os invasores Mouros de 711… populações estabelecidas em Oestrymnis, na Estremadura portuguesa, e daqui expulsas por uma “invasão de serpentes” que fez instalar novas populações, Sefes e Cempsos.

Durante decénios, aceitando sem discutir a Teoria das Invasões de Bosch Gispera, fizemos destas populações Celtas vindos do centro da Europa, negando as evidências arqueológicas que apontavam noutra direcção, negando Avieno que claramente nos dizia que os Cempsos, agora no ocidente peninsular, tinham o seu berço nas margens do Lago Ligustino, sendo irmãos germanos dos Tartéssios. Os fenícios tinham-nos preterido a favor destes últimos, e combatidos por uns e por outros, tinham os Cempsos partido para noroeste, arrastando na sua passagem uma multidão de povos menores.

A sua passagem como força invasora pelas planícies do Alentejo encontra-se arqueologicamente documentada, seja pelo desaparecimento súbito e inexplicável de povoados na Serra de Huelva e nas duas margens do Guadiana (o povoado de Passo Alto, na margem direita do Chança, é um caso paradigmático), seja pela alteração do modelo de povoamento no Alentejo Central, com as populações abandonando as suas quintas na planície, sem preocupações defensivas, e recuperando ou construíndo grandes povoados fortificados, no cimo dos montes, como se pode comprovar nos povoados da Serra d’ Ossa. Fundam uma primeira cidade, Dipo, que sobrevive até à epoca romana e que muito acreditam estar no subsolo de Évoramonte. E avançando para oeste e para noroeste fundam sucessivamente Beuipo (Alcácer do Sal), Olisipo (Lisboa) e Colipo (Leiria), avançando até às margens do Mondego. A terminação em “-ipo” das povoações que fundaram (os topónimos que o tempo não devorou), não nos ilude quanto à sua proveniência, pois a esmagadora maioria dos povoados em “-ipo” encontra-se a sul do Guadalquivir.

Quanto aos Sefes, nada sabemos... tirando o facto de serem exógenos (os antigos habitantes, os Estrímnios (Oestrymni), foram expulsos e a terra ficou vazia, diz-nos Avieno). Não sabemos se os Sefes acompanharam os Cempsos no seu êxodo desde o Lago Ligustino ou se aqui chegaram na mesma altura, sendo seus aliados na conquista do país. Tudo nos leva a apostar na segunda hipótese, pois Avieno diz-nos que os vizinhos dos Cinetas eram os Cempsos, estando pois estes últimos a sul dos Sefes e, sendo mais numerosos – eventualmente pelo número de povos que arrastaram – tenham acabado por exercer alguma hegemonia política, ao ponto de serem eles a nominar os novos povoados e, alcançando o Mondego, “cercarem” pelo norte e pelo sul os Sefes.

Menos numerosos, os Sefes estabeleceram-se na Baixa Estremadura, onde partilharam os campos e as colinas com a grande coligação dos Cempsos, mas sem se unirem ou submeterem, pois Avieno identifica-os claramente. De onde vieram? De leste claramente não vieram, pois aí estão instalados os povos que a História conhecerá por Lusitanos. Do norte também não é provável, pois esse movimento impediria o êxodo dos Estrímnios aquando da “Invasão das Serpentes”. Resta-nos a via marítima, o largo oceano onde o Tejo se derrama…

O mar era uma velha e familiar estrada, que sempre trouxera gente ao ocidente peninsular. Por ele tinham viajado os pioneiros neolíticos vindos do Mediterrâneo Oriental. Por ele tinham viajado os homens e as ideias que, da longínqua Bretanha, tornaram possível o fenómeno megalítico no Alentejo Central. Por ele tinham viajado os homens e as mulheres que trouxeram o Campaniforme até Oestrymnis, desde a foz do Reno. E era em Oestrymnis, já na Era do Bronze, que se encontravam os comerciantes do nebuloso norte com os comerciantes do luminoso sul. Há cinco mil anos que o grande oceano era navegado, e há cinco mil anos que Oestrymnis era, no Ocidente, uma das principais razões porque os homens desafiavam esse grande oceano.

Perante isto, não nos custa admitir terem os Sefes alcançado Oestrymnis por mar. Teriam chegado na mesma altura em que os Cempsos, uns por mar, outros por terra. Podemos mesmo, com alguma imaginação, reconstituir os primeiros passos no novo país onde escolhiam viver. Unidos por um objectivo comum e por uma bandeira comum (a serpente) teriam os dois povos pactuado a divisão da terra. Os barcos dos Sefes, subindo o rio Tejo – mais largo do que hoje – muito para além de Santarém, transportavam os Cempsos da margem esquerda para a margem direita, derramando tropas e abrindo novas frentes de combate que rompiam as defesas dos Estrímnios. Era a grande «invasão das serpentes», que vinha pôr fim à civilização estrímnia e marcar uma nova era. Nascia o «País das Serpentes», que os Gregos, informados da lenda, traduziriam depois para Ophiussa.

Mas quem eram afinal estes Sefes que partilhavam com os Cempsos as colinas e os campos de Ophiussa? Qual a sua proveniência? Vinham da Europa do Norte ou do Mediterrâneo? Temos razões para acreditar virem do Mediterrâneo, acompanhando a colonização fenícia do Mediterrâneo ocidental, pois o surgimento quase simultâneo dos dois povos nas costas ocidentais da península não pode ser simples coincidência.

O etnónimo “Sefes” tem sido motivo de grande controvérsia. Escavando hipotéticas raízes célticas, ainda embebido pela «Teoria das Invasões» de Bosch-Gimpera, conseguira S. Lambrino ligar os Sefes, embora sem grande convicção, com o topónimo Sefulae do nordeste da Gália. Mais nos parece a nós, olhando o mito da Invasão das Serpentes, que é no hebraico tsefah «serpente» que devemos procurar a origem do etnónimo “Sefes”. Entre as doze tribos de Israel a serpente era o eterno símbolo dos Filhos de Dan, que lhes fora transmitido por Jacob no seu leito de morte:

Dan será a serpente junto ao caminho, uma víbora junto à vereda, que morde os calcanhares do cavalo e faz cair o seu cavaleiro por detrás.

Génesis, 46:17

De regresso a Canaan depois do êxodo egípcio, as sortes lançadas por Josué foram aziagas para os Filhos de Dan na distribuição dos territórios pelas doze tribos de Israel.

Saiu, porém, pequeno o termo aos filhos de Dan; pelo que subiram os filhos de Dan e pelejaram contra Leshem; e a tomaram, e a feriram ao fio da espada, e a possuíram e habitaram nela: e a Leshem chamaram Dan, conforme ao nome de Dan, seu pai.

Josué, 19:47

A divisão da terra de Canaan entre as doze tribos de Israel não significou que os territórios fossem rigorosos. Na verdade a terra não se encontrava vazia, e os Filhos de Israel, para garantirem a posse da terra que lhes coubera em sorte, tinham primeiro de conquistá-la. Belicosos, fortalecidos na guerra contra os Filisteus (que os historiadores dizem ser seus irmãos de raça) os Filhos de Dan partiram à conquista da cidade de Leshem, situada no extremo norte da terra de Canaan, no território tradicionalmente atribuído à tribo de Neftali. Esse pormenor “jurídico” não impediu a sua conquista pelos Dan. Sendo os habitantes de Leshem Sidónios (Fenícios), não nos custa admitir terem os Filhos de Dan garantido pela força das armas, também contra os Fenícios, o controlo militar de um largo “corredor” que permitia o acesso de Leshem/Dan ao mar. Ficaria este corredor entre o território de Asher e a Fenícia.

Desenvolveu-se uma relação íntima entre os Filhos de Dan e os Fenícios, ao ponto de os casamentos entre homens e mulheres dos dois povos se ter vulgarizado (o celebrado artífice que Hiram, o rei de Tiro, envia a Salomão para o ajudar na construção do templo é filho de um fenício e de uma mulher judia da tribo de Dan). Influenciados pelos Fenícios os Filhos de Dan apaixonam-se pelo mar e pelos barcos. Compreende-se assim o lamento de Débora, a profetiza:

Gilead se ficou dalém do Jordão, e Dan, por que se deteve em navios?

Juízes, 5:17

Sabemos que os Filhos de David combateram ao lado do rei David, em Hebron, onde forneceram vinte e oito mil e seiscentos combatentes, e quando David era já idoso «e cheio de dias», na altura em que fez Salomão, seu filho, rei de Israel, os Dan ainda viviam em Canaan, pois um dos seus príncipes, Azarel, está presente na cerimónia de coroação. Reinou Salomão 40 anos, e sucede-lhe seu filho, Roboão, que não consegue manter a unidade do reino, tendo apenas a seu lado as tribos de Judá e Benjamim. Por esta altura Dan faz parte das dez tribos rebeldes que coroam Joroboão rei de Israel, no norte, oposto a Joroão, em Judá, no Sul.

Em Crónicas I, contudo, na genealogia dos povos, a tribo de Dan já não figura entre as doze tribos, sendo substituída pela tribo de Levi. Em fins do século IX, princípios do século VIII, os Filhos de Dan não voltam a figurar nos livros dos profetas, pois eles, os mais idólatras de todos, desistiram da nação de Israel. E em 722 a. EC, quando os Assírios, sob o comando de Salmanaser V e depois Sargão II conquistam o reino do norte e destroem a sua capital, Samaria, deportando todos os Israelitas para a Mesopotâmia, os Filhos de Dan já tinham partido.

Acreditamos que terá sido durante o reinado de Hazael, rei de Aram-Damasco (842-805 a. EC) que os Filhos de Dan, habitando a mais setentrional das cidades de Israel, sempre sujeitos aos ataques e às pilhagens do Arameus, comprimidos num minúsculo território que não oferecia segurança para as populações, terão procurado protecção no país dos cedros.

O rei de Tiro era, por esta altura, Pummayyaton (o conhecido Pigmalião da mitologia grega), que reinaria entre os anos de 831-785 a. EC. Era lendária a índole guerreira dos Filhos de Dan, e a Pigmalião não interessava ter nas suas fronteiras (eventualmente dentro do seu país) gente tão perigosa. Havia que fazê-los partir, e o mar apresentava-se como a melhor solução. Não deixa de ser significativo ser exactamente no reinado de Pigmalião que Tiro se lança decisivamente na colonização do Mediterrâneo ocidental (Cartago, a mais famosa das suas colónias, é fundada – segundo a lenda – em 825 a. EC, pela irmã de Pigmalião, Dido).

A denominada Pedra de Nora, encontrada na Sardenha, com uma inscrição fenícia, dá-nos a conhecer alguns dos pormenores dessa colonização do Mediterrâneo ocidental, que esteve longe de ser pacífica, como durante muito tempo foi admitida. Por essa inscrição, onde aparece o nome de Pummayyaton sob o hipocorístico Pummay, ficamos a saber que o general fenício

Milkaton, filho de Shubna, general do rei Pummay, combateu
com o seu exército os Sardenhos em Tarshish, vencendo-os
e alcançando a paz.

Havendo hoje alguma unanimidade entre arqueólogos e historiadores quanto à fundação quase simultânea das colónias fenícias no Ocidente, é lícito supor que a realidade que encontramos na Sardenha (um poderoso exército fenício vencendo os autóctones e conquistando o país) se tenha repetido noutras paragens onde Tiro decidira fundar as suas colónias, e onde as relações com os autóctones se revelavam conflituosas.

Em Cartago diz-nos a lenda que Dido, tendo partido de Tiro em 825 a. EC, se estabeleceu primeiro numa ilha, fortificando-a, e que durante onze longos anos Fenícios e Líbios se combateram, até a paz ser por fim alcançada e Dido obter permissão para fundar Cartago, em 814 a. EC. O estabelecimento no sul da Península Ibérica esteve igualmente longe de ser pacífico, e Gadir, a celebrada colónia ibérica, numa ilha, foi segundo Estrabão uma terceira escolha, depois de verem goradas as anteriores tentativas, em Onuba e em Sexi, onde seguramente terão sido combatidos pelas populações locais.

Mesmo em Tartessos, onde a colonização fenícia foi intensa, com Fenícios e Tartéssios beneficiando mutuamente da estreita relação, a rivalidade entre os dois povos terá sempre existido. Os autores latinos Justino e Macróbio descrevem inclusivamente algumas guerras entre os Tartéssios e os Fenícios, especialmente os de Gadir. Diz-nos Justino que os povos que viviam perto de Gadir (i. é, os Tartéssios) tinham muita inveja da nova cidade que nascia, e que atacaram os Gaditanos, que pediram ajuda aos Cartagineses, que vieram socorrê-los, acabando por conquistar uma grande parte da Hispânia.

É pouco provável que por esta altura Cartago, também acabada de ser fundada, tivesse condições para, por si só, socorrer Gadir. Mas se equacionarmos a presença de mercenários a soldo de Cartago, eventualmente numa altura em que já reinava a paz entre Fenícios e Líbios, então não nos custa admitir a transferência desses mercenários do Norte de África para a Península Ibérica.

Através da realidade púnica conhecemos bem a organização e a estrutura militar dos exércitos fenícios. Em Cartago os mercenários foram sempre preponderantes. Recrutados entre os Líbios, os Gauleses, os Iberos, os Celtiberos e os Lusitanos, com eles combateu Cartago na Primeira e na Segunda Guerras Púnicas. Com eles conquistou Amílcar Barca o seu império ibérico. Com eles marchou Aníbal Barca pelos Alpes, com os seus elefantes de guerra, para desafiar Roma na sua própria casa.

Quando Pigmalião se lança na colonização do Mediterrâneo Ocidental, nas suas frotas seguem centenas de navios, uns transportando os colonos com as suas famílias, os outros transportando os homens de armas que irão proteger as novas colónias. Temos razões para crer que esses homens de armas serão na sua maioria mercenários, soldados de fortuna que seguem acompanhados das suas famílias... gente que os azares da guerra tinha feito convergir ao reino de Pigmalião. São os Filhos de Dan, a mesma raça de guerreiros que gerara Sansão, o maior de todos os heróis hebreus, mas que, isolada no norte e diante da fúria de Hazael – que recriava o império arameu devorando a terra de Israel – se sentia incapaz de garantir a segurança das suas famílias. Emigrava agora, acompanhando os colonos fenícios, para sempre se perdendo a sua memória entre os Filhos de Israel.

Acreditamos que a última guerra guerra travada pelos Filhos de Dan por conta dos Fenícios tenha sido exactamente a que Justino nos descreve, e que os opõe a um dos povos tartéssios (que só podem ser os Cempsos, pois de outro modo não se compreenderia o seu êxodo). Derrotados estes pelos exércitos mercenários dos Fenícios, expulsos da grande ilha de Cartare, na foz do rio Guadalquivir (do que resultou a rápida ascenção da cidade de Tartessos, eventualmente neutra durante o conflito, e por isso escolhida como interlocutora privilegiada), os Filhos de Dan resolvem instalar-se por sua conta. Acabarão por escolher o ocidente peninsular, que conquistarão, lutando desta vez ao lado dos homens que combateram.

Os viajantes gregos guardarão para o futuro o nome que dão a si mesmos – Sefes, «as Serpentes» – porque assim os designara o pai de Dan, Jacob, mas também porque a serpente era, desde Moisés, a imagem totémica dos Filhos de Israel, o único ídolo admitido por D-us ao povo eleito.

E disse o Senhor a Moisés: Faze uma serpente ardente, e põe-na sobre uma haste; e será que viverá todo o mordido que olhar para ela. E Moisés fez uma serpente de metal, e pô-la sobre uma haste; e era que, mordendo alguma serpente a alguém, olhava para a serpente de metal, e ficava vivo.

Números, 21:8-9

Autorizada por D-us, abençoada por Moisés e materializando a profecia de Jacob em relação à sua tribo, a serpente de metal terá sido especialmente acarinhada pelos Filhos de Dan, que a tornaram seu estandarte. A serpente prestigiava-os igualmente junto dos Fenícios, ou não fosse ela uma das representações de Baal e símbolo da sabedoria divina... Baal, o deus que eles sempre tinham adorado, e a que se tinham definitivamente rendido, esquecendo Iavé. Mas como podiam eles ter resistido ao chamamento do mais antigo dos deuses de Canaan, tão isolados no norte da terra de Israel e tão perto dos Fenícios, se mesmo Salomão, com toda a sua sabedoria, não fora capaz de o fazer?

Ao contrário dos Cempsos, não temos um conhecimento exacto dos povoados onde os Sefes se instalaram depois da conquista do novo país, mas a matriz orientalizante de Santarém, o seu nome primitivo (Scalabis) e a lendária antiguidade da sua comunidade judaica, fazem-nos equacionar ter sido este povoado, localizado num planalto implantado no mesmo maciço calcário estremenho que já merecera a atenção dos pioneiros neolíticos, terá merecido igualmente a sua atenção e terá sido um dos locais onde se terão instalado. Não deixam de ser curiosas as analogias entre Scalabi(s) e Saalabin (uma cidade dos Filhos de Dan, em Canaan) e entre Balatha (designação árabe do Ribatejo e Oeste, mas herança muito antiga) e Baalath (localidade e região dos Filhos de Dan, mas também a forma feminina de Baal, o deus da fertilidade).

Não se sabe ao certo quando o corónimo Sefarad passou a designar Península Ibérica, embora muitas hipóteses se tenham avançado até hoje. Tudo indica ter sido a tradição rabínica medieval a consolidar o corónimo, designando deste modo a península onde os Judeus viviam a sua Idade de Ouro. No livro de Obadias, Sefarad designa o local onde se encontram os cativos de Jerusalém:

E os cativos deste exército dos filhos de Israel, que estão entre os cananitas, possuirão até Jarefath; e os cativos de Jerusalém, que estão em Sefarad, possuirão as cidades do sul.

Obadias, 1:20

Pensamos que nunca foi equacionada, pela sua obviedade, a ligação entre o etnónimo Sefes e o corónimo Sefarad. A verdade é que, na nossa preocupação de celticizarmos os Sefes, nunca conseguimos abrir o nosso espírito a outras possibilidades... e a etimologia de Sefarad foi sempre uma incógnita. Mas se no hebraico juntarmos o substantivo “tsefah” (serpente) e o verbo “radah” (dominar, governar), teremos um corónimo Tsefarad, Sefarad (= O Domínio das Serpentes). É afinal o mesmo corónimo que os Gregos traduziriam por Ophioussa, com o mesmo significado, «O País das Serpentes», o país que os Sefes/Filhos de Dan renomearam e onde definitivamente se instalariam.

Quando no Atlântico muitos buscam, de forma fantasiosa, os Filhos de Dan entre os Dinamarqueses (Danmark), os ingleses (Lon-Dan) ou os irlandeses (Tuatha dé Danan, do Livro das Invasões), mais crível seria o corónimo Lusitânia, cuja origem é um mistério, ser apenas uma deturpação de Luzidanya, onde o primeiro elemento, Luz, designa a Cidade dos Imortais na tradição hebraica (onde o Anjo da Morte não consegue entrar e para onde o rei David se teria retirado no final da vida e onde ainda vivia) e um osso da coluna, indestrutível pelo Homem, pelo Tempo ou pelos elementos, e o eixo da ressurreição. Eterna evocação dos Filhos de Dan, o corónimo Luzidanya, o nome hebraico de Portugal, perpetuaria a memória da tribo perdida de Israel que ganhara raízes no Ocidente europeu.

Mas as nossas balizas são os factos históricos, não as fantasias. E os factos históricos apontam claramente para que os Filhos de Dan, refugiados no país dos cedros aquando das ferozes campanhas militares de Hazael contra Israel, tenham sido recrutados como mercenários por Pigmalião, seguindo com as suas famílias nas frotas fenícias onde seguiam os homens e mulheres de Tiro que iam colonizar o Mediterrâneo Ocidental. Com o nome de Sefes (=As Serpentes) acabariam por se estabelecer no ocidente da Península Ibérica, onde aliados aos Cempsos conquistariam o país que Avieno nos diz chamar-se Ophiussa, «País das Serpentes». Este corónimo será apenas uma tradução de Sefarad, o nome que na sua língua deram ao país onde definitivamente se instalavam.

Hoje poucos conhecem (e muitos recusam conhecer) o mito fundador da nossa terra ocidental, onde os Filhos de Dan, uma das doze tribos de Israel, fortemente aculturados pelos Fenícios, desempenharam um papel determinante, deixando para o futuro uma pegada histórica e genética no território que é hoje Portugal.

Oitenta gerações de homens e mulheres, vinte longos séculos, permeiam entre o nascimento de Ophiussa e o nascimento de Portugal. Dir-se-ia que a plaina do tempo, arrancando lascas sobre lascas à memória dos vivos, teria feito desaparecer o mito fundador, a lenda da Invasão das Serpentes. Surpreendentemente a tsefah, «a serpente», símbolo e estandarte dos Filhos de Dan (os Sefes), iria sobreviver através dos tempos, ressurgindo sob a forma da serpente alada (o dragão), oficialmente o timbre dos reis de Portugal desde D. João I, embora um documento apócrifo atribua a sua adopção a Afonso Henriques, que teria recuperado a «serpente de Moisés» e a usaria como símbolo pessoal (já fora símbolo pessoal dos reis suevos, que a tinham copiado do «draco» das legiões de Marco Aurélio, no tempo em que os Quados combatiam Roma nas Guerras Marcomanas).

É no Mosteiro da Batalha que podemos encontrar as mais antigas representações do dragão em terras portuguesas. Está presente na chave da abóbada na Capela do Fundador, e numa pedra de armas sobre a porta sul da Igreja. Em ambas surge o dragão representado de frente. No selo real, porém, o dragão só se irá impôr a partir de D. Afonso V (num selo de chancelaria deste soberano, apenso a um documento datado de 1450, surge-nos o dragão, de perfil, bem visível e expressivo).

Com D. Manuel I, um dos maiores cultivadores do património heráldico português, as armas reais adquirem belíssimas representações. No armorial designado por «Livro da Torre do Tombo» temos uma explêndida iluminura, o padrão oficial das armas do rei de Portugal, com o dragão de ouro, de frente, olhando à esquerda do observador. Esta é a melhor fonte para conhecermos a cor do dragão do rei de Portugal – ouro, o mais nobre dos metais – e não verde como alguns o representarão mais tarde, erroneamente.

Já no século XV se sabia no estrangeiro que o dragão era a cimeira do rei de Portugal, e por extensão o símbolo do país, com vários armoriais representando este animal fantástico, de ouro ou prata, sempre enqunto símbolo de Portugal. Assim acontece no Armorial Equestre do Tosão de Ouro e da Europa (c. 1450), onde uma espectacular figura de cavaleiro – o Roy de Portighal – tem como timbre, sainte da sua coroa aberta, um dragão de ouro, posto de frente, com os seus membros visíveis. O mesmo se repetirá nos armoriais de Clemery (século XV), Donaueschigen (1433), Grunenberg (1483), Schnitt (século XV).

No século XVI D. Sebastião é o último rei a representar o dragão como timbre da monarquia portuguesa e de Portugal. Mas no século XVII, restaurada a independência, numa curiosíssima estampa da obra Lusitania liberata ab injusto Castellanorum, datada de 1645, vê-se um dragão possante, coroado com a coroa real fechada, atacando e vencendo um leão – o dragão português vencendo o leão espanhol. Este simbolismo do dragão, finalmente identificado com a nação portuguesa e não só com os seus reis, está bem patente numa brilhante metáfora de um dos sermões do padre António Vieira, que nos confirma o dragão nas armas de Portugal no século XVII.

Eu não direi que S. João no seu Apocalipse levantou figura aos que nascem em Portugal; mas há muitos dias que naquelas suas visões de Patmos tenho observado uma notável pintura, na qual estão retratadas ao vivo as fortunas ou influências deste fatal nascimento:

Signum magnum apparuit in coelo mulier amieta Sole, et Luna sub pedibus ejus, et in capite ejus corona Stellarum duodecim: et in utero habens, clamabat parturiens. Visum est et aliud signum in coelo: et ecce Draco magnus: et Draco stetit ante mulierem, quae erat paritura; ut cum peperisset risset filium ejus devoraret.

Esta é em suma a história da visão, na qual diz o Evangelista, que viu primeiramente uma mulher vestida do Sol, coroada de Estrelas, e com a Lua debaixo dos pés, a qual estava de parto, e dava vozes. E que logo apareceu diante desta mulher um grande Dragão, o qual com a boca aberta, estava esperando que saísse à luz o filho para lho tragar e comer, tanto que nascesse. Infeliz menino, antes destinado às unhas e dentes do Dragão, que nascido! Mas que Dragão, que mulher, e que filho é este? O enigma é tão claro, que pelas figuras sem letra se pode entender. A mulher vestida de luzes, o mesmo nome diz, que é a Lusitânia: as luzes são as que ouvistes o ano passado; e o ter a Lua debaixo dos pés, é a maior expressão da mesma figura; porque a Lusitânia foi a primeira em toda a Espanha, que sacudiu o jugo dos Sarracenos, e tantas vezes então, e depois meteu debaixo dos pés as Luas Maometanas. O parto, que a fazia bradar, são os filhos, ou partos da Lusitânia, não todos, senão aqueles com quem ela dá brado no mundo. E o Dragão, finalmente já preparado para tragar esses filhos, é aquele mesmo Dragão que Portugal tem por timbre das suas armas; porque é timbre da nossa Nação, tanto que sai à luz quem pode luzir, tragá-lo logo, para que não luza. De maneira que a mulher e o Dragão em tão diferentes figuras, uma humana, outra sem humanidade, ambas vêm a ser a mesma coisa; porque como mulher pare os filhos, e como Dragão os traga depois de nascidos.

Padre António Vieira
Sermão de Santo António


Até ao fim da monarquia a serpente alada (dragão) estará sempre presente, nas diversas representações heráldicas portuguesas (no mobiliário real, por exemplo, como pode ser verificado no Palácio da Ajuda). Uma das mais notáveis representações, contudo, é o Carro Triunfal, o coche da embaixada ao Papa Clemente XI, que fazia parte do conjunto de cinco coches temáticos e dez de acompanhamento que integraram o cortejo da Embaixada enviada pelo rei D. João V ao Papa, em 1716. Alusivo ao tema da coroação de Lisboa, capital do Império, vitoriosa na defesa da Fé cristã.

O exterior apresenta caixa aberta forrada a seda vermelha, decorada com esculturas de talha dourada, em estilo barroco. No jogo dianteiro apresenta uma alegoria em que um génio parece conduzir o carro, tendo a seu lado as figuras simbólicas do Heroísmo e da Imortalidade. No cabeçal, do jogo traseiro, a figura de Lisboa coroada pela Fama e pela Abundância que segura uma elegante cornucópia de flores e frutos. Aos pés de Lisboa, o dragão alado, símbolo da Casa Real, quebra o crescente muçulmano, perante a figura de dois escravos agrilhoados, que representam a África e a Ásia.

Com a revolução republicana toda a simbologia monárquica e todos os simbolos que estavam relacionados com a monarquia são varridos. São vandalizados os monumentos e as coroas arrancadas. A bandeira nacional, a liberal, bipartida de azul e branco, será substituída por outra, igualmente bipartida, agora de vermelho e verde. De igual modo a serpente alada, o dragão, que Afonso Henriques tornara seu símbolo pessoal, se iria perder.

Mas não acreditamos que a Serpente de Moisés, presente no território português desde c. 800 a. EC., quando os Filhos de Dan/Sefes aqui aportaram nos seus navios, se tenha perdido para sempre. A serpente e o dragão fazem parte do nosso simbólico, fazem parte da História de Portugal. Este é, afinal, o País das Serpentes, a terra de Ophiussa.

José Galazak

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4 comentários:

  1. Muuuuuuuuuuitoooooooooo Interessante !
    Fiz aqui a ligação óbvia á obra do Moisés Espírito Santo « Fontes Remotas da Cultura Portuguesa» .
    Faz sentido o que aqui foi dito ...
    Um abraço .
    Rogério Maciel

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  2. Muito bom, tenho estado a estudar Alta antiguidade!! A questão do porque do culto ofiolatrico se encontrar tão enraizado no Norte de Portugal e na Galiza, não tinha um resposta. Claro que este já podia ser visto desde em Portugal desde o Neolítico mas não compreendia o porque dele aparecer tão forte, de facto com está explicação correlacionado com a influência de povos e culturas do mediterrâneo oriental dá uma resposta e liga algo que eu considerava indistinto Portugal praticava cultos de outras paragens, o que não tinha sentido agora faz tudo sentido.

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  3. http://www.publico.pt/Ci%C3%AAncias/descoberto-perto-de-silves-o-vestigio-judaico-mais-antigo-da-peninsula-iberica-1548183

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  4. Sugiro estudar a genetica, em vez de escrever livros de romance.

    È óbvio que portugal teve influencia fenicia, mas nao passou disso influência,muito pequena, pois a genética mostra uma realidade muito diferente.

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