quarta-feira, 19 de maio de 2010

Sisnando Davides: A vida aventurosa de um judeu português do século XI

José Galazak

Em 1071 o duque de Portucale, Nuno Mendes, herdeiro prestigiado de uma poderosa dinastia afrontada pela política centralizadora dos reis de Leão e Castela, sentindo que os herdeiros de Fernando Magno, divididos, estão à sua altura, rebela-se contra o rei Garcia da Galiza. Este avança com todas as suas forças e dá-lhe combate no lugar de Pedroso, a norte de Braga. O resultado não podia ser mais desastroso: o duque é derrotado e morto, os seus barões desbaratados e o ducado – depois de dois séculos de uma gloriosa existência – é extinto, revertendo os seus bens para o património da coroa.


Deixou Nuno Mendes uma filha, Loba Nunes, sua única herdeira, casada com o poderoso conde de Coimbra, que governava um vastíssimo território que tinha o Douro por fronteira setentrional. Poderia ter o conde de Coimbra, fruto das suas excelentes relações com o poder real, ter reclamado os bens e eventualmente o poder dos duques de Portucale, mas a verdade é que não há nada de comum entre os barões que seguem Nuno Mendes e os cavaleiros que seguem o conde de Coimbra.

Os primeiros são os orgulhosos descendentes dos cavaleiros que acompanharam Vímara Peres em 868 na conquista de Portucale (Porto). São homens que tinham vindo recuperar a antiga organização territorial herdada da época visigótica (estaremos mesmo diante dos herdeiros dos nobres do antigo Regnum Suevorum, conquistado pelos Godos em 585 mas que tinham continuado a governar as suas terras de sempre, só abandonando as suas villae aquando da invasão de 711). Nunca conheceram a aculturação islâmica e os Mouros com que lidavam eram apenas aqueles que combatiam quando acompanhavam o rei nas suas algaras por terras do Andalus.

Os homens que seguem o poderoso conde de Coimbra são cavaleiros vilãos, moçárabes, Cristãos cuja cultura é pesadamente árabe, que falam a língua árabe e cuja língua vernácula, tendo por base o latim, se viu enriquecida por milhares de vocábulos árabes. A influência destes homens no futuro será tal que a língua que falam será a base da língua portuguesa. Um abismo separa os homens que vivem a norte do Douro dos que vivem a sul, e o conde de Coimbra, mesmo ligado aos duques de Portucale pelos laços do matrimónio, sabe que o seu lugar é no sul, entre os homens do sul, e não no norte.


O poderoso conde de Coimbra é uma das personalidades mais fascinantes do seu tempo. Os seus pais chamavam-se David e Susana, nomes de origem hebraica e que no século XI eram quase exclusivamente utilizados por Judeus, o que faz supor que Sisnando Davides fosse judeu ou filho de judeus. Essa é de resto a opinião de José Hermano Saraiva.

Uma tradição coeva diz-nos que Sisnando Davides era natural de Tentúgal, pequena aldeia próximo de Coimbra, e que na sua infância teria sido capturado numa razia de Mouros, tendo sido levado para Sevilha. Ter-se-ia convertido então ao islamismo, o que lhe abriu uma porta de oportunidades que ele soube aproveitar como ninguém, atingindo o cargo de vizir do rei de Sevilha. Não era invulgar que assim acontecesse. Na verdade por esta altura o judeu Samuel ibn Nagrela (Shmuel HaLevi ben Yosef HaNagid), poeta e talmudista, ocupava o posto de vizir e chefe dos exércitos do reino de Granada (guardaria este último e importante cargo desde 1038 até à sua morte, em 1055 ou 1056). E na taifa de Saragoça o também judeu Yekoutiel ben Isaac era ministro e conselheiro do rei Ahmad ben Soulayman al-Mouqtadir.


Não há informações concretas sobre a primeira metade da vida de Sisnando Davides. Mas o facto de ter feito carreira em Sevilha, na corte do rei Al-Mutadid, faz-nos acreditar que teria «viajado» para o sul entre os anos 1027 e 1034, período em que Sevilha controlou a enorme taifa de Batalyaws (Badajoz), que incluía as cidades de Lamego, Viseu, Coimbra, Santarém e Lisboa.

A análise dos factos leva-nos a duvidar da versão oficial de que Sisnando Davides foi capturado enquanto jovem na sua aldeia natal de Tentúgal, numa razia de Mouros, pois nessa altura praticamente todo o Al-Gharb (o ocidente peninsular a sul do Douro) voltara a estar nas mãos dos Muçulmanos. Por esta altura Tentúgal, tal como Coimbra, eram localidades sob controlo muçulmano. A deslocação de Sisnando Davides para Sevilha ter-se-ia ficado a dever a outros motivos (a normal deslocação de pessoas dentro do mundo muçulmano), não a uma captura durante uma razia que não faria sentido dentro da conjuntura atrás indicada.


Se quisermos traçar um retrato fiável de Sisnando Davides não podemos dissociar o seu percurso de vida do de Samuel ibn Nagrela, tanto mais que ambos alcançaram os lugares mais altos dentro da administração dos reinos das taifas, tendo de ser os melhores entre os melhores, para vencer o preconceito religioso. Conhecemos bem Ibn Nagrela, um homem cultíssimo, que teria recebido o essencial da sua educação de seu pai, completando depois a sua formação com rabinos de Córdova, os mais conceituados. Não temos razão para duvidar de que David, o pai de Sisnando, terá preparado o seu filho da mesma maneira, talvez ainda em Tentúgal ou Coimbra. Viajando depois para Córdova (onde a tradição também nos diz ter sido educado) e Sevilha, aí terá o jovem Sisnando completado a sua formação. E deste modo ganha mais força a nossa tese de que Sisnando era um judeu de Coimbra/Tentúgal.

Não conhecemos as razões que terão levado Sisnando Davides a trocar Sevilha pela corte de Fernando Magno, em Leão, mas não deverão ser estranhas ao seu orgulho e à sua fortíssima personalidade. Quando em 1063 ou 1064 o rei decide reconquistar a cidade de Coimbra (fora conquistada em 878 e perdida em 987, na famosa expedição de Almançor), uma tradição coeva diz-nos que é Sisnando Davides quem está por detrás do projecto, convencendo o rei a realizá-lo. Verdade ou não, o que é certo é que o rei participa directamente na conquista da cidade, e com ele estão os seus filhos, a sua corte e muitos eclesiásticos, o que prova a importância que é dada então à cidade do Mondego.


A cidade é conquistada depois de um longo cerco de seis meses, e a Sisnando Davides, que terá tido um papel de grande destaque na conquista, é entregue não somente a sua administração, mas a administração de todo o território entre o Douro e o Mondego, o antigo condado de Coimbra, agora restaurado. Sisnando Davides, o judeu, torna-se um dos homens mais poderosos do reino de Fernando Magno.

A tradição indica-nos que, do ponto de vista religioso, Sisnando Davides é um moçárabe. E é bem possível que este homem, nascido de pais judeus e tendo recebido uma educação judaica, se tenha definido toda a sua vida como cristão. Experiente, sagaz, ele conhece bem a natureza humana. Homem de poder, amigo do poder, não nos custa admitir que publicamente se tenha convertido para ganhar a confiança de Fernando Magno e para manter a lealdade dos moçárabes de Coimbra (seria deste modo o primeiro cripto-judeu português). A opção mostrou-se correcta, pois governaria como um rei todo o centro de Portugal, até ao último dos seus dias, em 25 de Agosto de 1091.

As suas excelentes qualidades de governante farão com que o rei Afonso VI de Leão e Castela o nomeiem primeiro governador de Toledo, depois da conquista desta cidade em 1085, para implementar a sua política de tolerância entre as diversas comunidades que viviam na cidade (moçárabes, muçulmanos e judeus). Mas Sisnando era um homem do sul, e a sua personalidade fortíssima chocou contra o arcebispo Bernardo de Sedirac que, do ponto de vista religioso, queria impor a todos os Cristãos o rito romano em substituição do moçárabe, tal como ficara definido no Concílio de Burgos. Seis meses depois o «rei» Sisnando Davides estava de regresso a Coimbra.

Governando como um rei até ao último dos seus dias, e não tendo um filho para lhe suceder, Sisnando tentou impor no “trono condal” o seu genro. Mas a monarquia leonesa desenvolvia uma política unificadora e punha fim às antigas hereditariedades condais. O antigo condado/ducado de Portucale tinha desaparecido em 1071. O condado de Coimbra desaparecia em 1091. Da junção dos dois, da união do condado do norte com o do sul iria nascer o novo Condado Portucalense, com capital em Coimbra. Mas essas já são velhas histórias da nossa História…

5 comentários:

  1. É uma história muito interessante, mas, na minha modesta opinião a ética e a moral que nela se revela é muito baixa. Vale tudo para ser rei (ou rico) ou atingir um estatuto superior. Pobres desgraçados aqueles que vivem com HONRA, LEALDADE, DIGNIDADE...

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  2. Sr. José Galazak:

    Tendo em conta que Gonçalo Trastemires, da Maia, conquistou Montemor em 1034, pode colocar-se a possibilidade de a família de Sisnando se ter retirado da região nesse momento...

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    1. Concordo plenamente com o Sr. Anónimo !

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